Disrupção e Interdisciplinaridade no Ensino Superior
- João Batista Soares da Costa Junior

- 11 de jun. de 2019
- 6 min de leitura
Atualizado: 19 de fev.
João Batista Soares da Costa Junior
Karen Handam dos Santos
Patrícia Lima Rodrigues
Thiago Silva de Souza
Orientadora: Profa. Rossana Marina De Seta Fisciletti

RESUMO
O atual sistema educacional fragmentário vem prejudicando de forma exponencial o desenvolvimento de pensamento crítico e a integração entre as diversas áreas do saber. A interdisciplinaridade vem como uma proposta integradora de conhecimentos, visando acrescer ao aluno não somente o conhecimento acerca de determinada matéria e suas tangentes, como também seu desenvolvimento enquanto cidadão. O Observatório de Direito Digital da Universidade Estácio de Sá se propõe através perquirição de livros e periódicos, elaborar de forma argumentativa uma pesquisa para investigar esses novos paradigmas educacionais, com o intuito de demonstrar, de forma simples, a integração entre os mais diversos conceitos das áreas presentes em nossos ofícios.
INTRODUÇÃO
As mudanças presentes na sociedade não se limitam ao campo tecnológico ou a um segmento específico, sua abrangência vem modificando todos os segmentos possíveis, alterando hábitos cotidianos e indo de encontro a situações por muito dormentes, assim é o caso do conceito pedagógico que temos atualmente, uma educação fragmentária, baseada simplesmente na transmissão do saber, metaforicamente falando, “o educando é um copo a ser preenchido por conhecimento”.
Um ícone sobre a disrupção nesse segmento é Paulo Freire que há décadas atrás já perfazia argumentos acerca do assunto, tais como:
Fala-se, quase, exclusivamente, do ensino de conteúdos, ensino, lamentavelmente, quase sempre entendido como transferência do saber. Creio que uma das razões que explicam esse descaso em torno do que decorre do espaço-tempo da escola (...) vem sendo uma compreensão estreita do que é educação e do que é aprender.
O trecho acima descreve o atual cenário da educação, que normalmente não cria estímulo para uma aprendizagem interdisciplinar, não abre espaço para que o aprendiz dialogue e racionalize acerca de determinados assuntos que abranjam esse pensamento mais dinâmico. Consequência disso a tendência de formar profissionais limitados, carentes dessa perspectiva interseccional de conhecimentos, onde as ciências não dialogam, gerando, por consequência, profissionais incompletos.
Nossa proposta com a pesquisa é apresentar benefícios na interdisciplinaridade para a formação dos profissionais que atuarão nesse novo mercado de trabalho, repleto de possibilidades, necessidades e desafios.
REVITALIZAÇÃO DO ENSINO
Abordar e contextualizar a dinâmica do ensino superior que temos hoje, projetando uma dinâmica para as tendências formuladas a partir dos atuais modelos de globalização e espantosa quantidade de informações e possibilidades é algo, no mínimo, desafiador. A maior dificuldade está em expor o conceito de educação, inserido em uma sociedade conflituosa que busca entender os acontecimentos em sua volta, demonstrando a necessidade em difundir minimamente o conhecimento básico, mesmo que utilizando para isso as técnicas obsoletas, a fim de construir uma possibilidade de revitalização desta educação baseado em novos métodos multidisciplinares.
Assim sendo, podemos utilizar as palavras de Morim (2005, p.23) que revela de forma admirável tais circunstâncias,
A reforma necessária do pensamento é aquela que gera um pensamento do contexto e do complexo. O pensamento contextual busca sempre a relação de inseparabilidade e as inter-retroações entre qualquer fenômeno e seu contexto, e deste com o contexto planetário. O complexo requer um pensamento que capte relações, inter-relações, implicações mútuas, fenômenos multidimensionais, realidades que são simultaneamente solidárias e conflitivas (como a própria democracia que é o sistema que se nutre de antagonismos e que, simultaneamente os regula), que respeite a diversidade, ao mesmo tempo em que a unidade, um pensamento organizador que conceba a relação recíproca entre todas as partes.
Conceituamos a interdisciplinaridade de forma a posicionar a mesma como uma perspectiva que emergiu para superar fragmentação e a especialização do conhecimento, advindos da epistemologia positivista.
Essa pedagogia “crítico-dialógica”, conforme Paulo Freire, é a que “estimula o aluno a perguntar, a criticar, a criar; onde se propõe a construção do conhecimento coletivo, articulando o saber popular e o saber crítico, científico, mediados pelas experiências do mundo”. Sendo assim, quando contextualizamos essa proposta ao ambiente universitário poderemos construir inovadoras formas de especialização dos graduandos, focando diretamente e interdisciplinarmente sua formação.
Ocorre que o modelo de ensino utilizado em grande parte das universidades mantem um dogma fundado na “hierarquização do saber”, que consiste na restrição do conhecimento profundo a certas camadas. Tal modelo faz dos aprendizes meros coadjuvantes, na trilha do aprendizado, não superando os limitadores que estancam do conhecimento, quando na verdade deveriam ter o papel principal.
Os projetos de iniciação científica são o primeiro passo na disrupção desta hierarquização do saber, pois proporcionam uma relevante aproximação entre alunos e professores, criando um ambiente de troca constante onde os mestres e aprendizes têm liberdade para debater sobre os mais diversos temas, relevantes ou não à pesquisa proposta, incentivando aos alunos quanto às necessidades multidisciplinares e, principalmente, desenvolvendo o raciocínio crítico necessário para aplicar os conhecimentos adquiridos em sua formação.
Em diversos segmentos de mercado podem ser percebidas mudanças significativas não só no modo utilizado, mas também em toda a cadeia produtiva do agente. A educação não pode ser tratada de forma omissa ou deficiente, sendo necessário uma modernização e reestruturação o quanto antes. Um bom exemplo destas mudanças é o Jornal. Na década de 90 era comum a quase todas as famílias metropolitanas o hábito de ler jornal. Atualmente esse costume diminuiu drasticamente, dando lugar aos mais variados portais de notícias. O que significa essa mudança? A grosso modo, os leitores adquiriram utensílios tecnológicos, os jornalistas tiveram que se modernizar para a elaboração dos seus trabalhos, surgiram provedores de conteúdo para armazenar tão significativa quantidade de notícias, fotos, ferramentas multimídia e as informações puderam “saltar” do papel, gerando novos empregos, novas relações, contratos e diversas outras interações, tanto humanas quanto virtuais.
Utilizando como exemplo um modelo Jurídico podemos destacar o quanto a educação universitária é pautada em uma matriz curricular engessada, onde o discente precisa, até mesmo, cursar mais de uma graduação para atuar em um nicho específico de mercado. Um Business Lawyer ou Advogado de negócios além da graduação em Direito, necessita de sólidos conhecimentos de gestão e economia, além de noções de marketing e negociação. Quanto tempo seria necessário para que este “completasse” sua formação? Com as possibilidades que temos hoje, com certeza o dobro daquilo que ele necessitaria realmente. Na graduação em Direito ele obrigatoriamente precisa estudar todos os ramos do Direito, não tendo a possibilidade de focar em determinada especialidade, somente após sua conclusão é que o mesmo poderá partir para uma pós-graduação abrangendo assim os conhecimentos de gestão e, em uma próxima, os de economia, pois um Business Lawyer necessita de profundos conhecimentos de ambas.
A extensão das mudanças é imensurável, e não tende a estagnar, pelo contrário, a cada nova facilidade consolidada na sociedade, outras estão surgindo. A biometria já faz parte da vida de todos, seja através de um caixa eletrônico, um controle de acesso ou através da marcação do ponto na empresa onde trabalha. Os aplicativos que movimentam o mercado de mobilidade urbana, os cartórios digitais, certidões e declarações que antes tardavam dias até sua expedição, hoje, muitas vezes, estão disponíveis imediatamente através da web.
O primeiro salto educacional, rumo as novas tecnologias, se deu através da criação e difusão das formações pela Educação a Distância (EaD). O modelo a distância atualmente já conta com plataformas sólidas levando conhecimento de qualidade a lugares antes impossibilitados. O próximo salto poderá ser a disrupção do método tradicional de ensino, consolidando as propostas interdisciplinares de formação, trazendo maior diversificação profissional e consequentemente especialização em uma velocidade e aperfeiçoamento nunca antes verificada.
CONCLUSÃO
Somente através da pesquisa é possível se aprofundar em determinados temas pertinentes a formação universitária, bem como expor seus resultados, sua aplicabilidade prática, além de desenvolver um entendimento sobre colaboração, ética e aprimoramento.
A digitalização em massa do conhecimento disponível hoje se mostrou o principal alicerce para as mudanças que estão por vir, conforme as palavras de Paulo Freire (FREIRE, 2001, p.83) “proposta a construção do conhecimento coletivo, articulando o saber popular e o saber crítico, científico, mediados pelas experiências do mundo”, teremos uma descentralização do conhecimento e, pela primeira vez na história mundial, o conhecimento saiu das mãos de poucos e se expandiu por toda a sociedade, possibilitando pobres ou ricos a terem acesso às informações.
A pluralidade de setores, mercados e domínios influenciados pela Educação e Tecnologia se tornam a cada dia mais consideráveis, podendo seu entendimento e caracterização aferir, em limitado espaço de tempo, uma associação total sobre as relações interpessoais e virtuais. O estreitamento dos vínculos sociais e educacionais vem aproximando a sociedade do conhecimento e deixando para trás os estigmas de manipulação de massa, principiando um movimento em prol de mudanças educacionais e quebra de paradigmas e dogmas institucionais, descontruindo com isso a hierarquização dos saberes e promovendo a interdisciplinaridade necessária às próximas gerações de profissionais.
BIBLIOGRAFIA
FIGUEIREDO, Maria Auxiliadora Loiola de. A Educação na Complexidade: Aspectos fragmentados do Ensino Superior, disponível em https://uniso.br/publicacoes/anais_eletronicos/2014/1_es_formacao_de_professores/39.pdf, acessado em 12/04/2019
FREIRE, Paulo; NOGUEIRA, Adriano. Que fazer: teoria e prática em educação popular. Ed. Vozes; 1989.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido. Ed. Paz e Terra; 1997.
MORIN, Edgar. Educação e complexidade, os sete saberes e outros ensaios. São Paulo: Cortez, 2005.
PINHEIRO, Patrícia Peck. Direito Digital. 4. Ed. São Paulo. Saraiva, 2010.



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